Em algum momento entre 2022 e 2023, a palavra "unicórnio" deixou de ser aspiração e virou quase um palavrão nos círculos de tecnologia brasileiros. O dinheiro tinha secado, os valuations inflados começaram a desabar, e fundadores que antes eram celebrados como visionários se viram explicando para investidores por que suas empresas ainda não tinham lucro depois de cinco anos.
Dois anos depois, o cenário é diferente — mas não da forma que muita gente esperava. Não houve um grande ressurgimento de capital. Não voltou o apetite irresponsável de 2021. O que aconteceu foi algo mais interessante: uma parte do ecossistema aprendeu a construir empresas que funcionam.
Os números que importam
Dados compilados pela Associação Brasileira de Startups mostram que o número de empresas que atingiram breakeven em 2024 foi 40% maior do que em 2022. Mais revelador ainda: a proporção de startups que levantaram rodadas de série A com receita recorrente real — não projetada — subiu de 34% para 61% no mesmo período.
Isso não significa que o mercado está fácil. Significa que as empresas que sobreviveram aprenderam a jogar um jogo diferente.
"A crise foi brutal, mas ela fez uma limpeza que o mercado precisava. Saíram as empresas que só existiam por causa do dinheiro barato. As que ficaram têm produto de verdade." — Marcos Andrade, sócio da Canary, em entrevista ao PortBR Digital
O novo perfil do fundador brasileiro
Há uma mudança geracional acontecendo que vai além dos números. Os fundadores que estão captando hoje — em sua maioria entre 28 e 38 anos — cresceram profissionalmente durante a crise. Eles nunca conheceram o ambiente de 2021. Para eles, ter que justificar cada centavo de gasto não é uma novidade traumática. É apenas como as coisas funcionam.
Essa geração também tem uma relação diferente com o que significa "escalar". Muitos preferem crescer de forma controlada, mantendo margens saudáveis, do que perseguir crescimento de receita a qualquer custo. É uma mentalidade mais próxima de como empresas de tecnologia funcionam nos mercados europeus do que do modelo americano que dominou o imaginário do setor por uma década.
Setores em destaque
Três verticais concentram a maior parte da atividade de captação no primeiro semestre de 2025: agritech, healthtech e edtech voltada para o mercado corporativo. Os três têm em comum algo que os investidores passaram a valorizar: demanda real, não criada artificialmente por subsídio ou desconto.
O agritech brasileiro tem uma vantagem estrutural que poucos países têm — um setor agrícola enorme, com baixa penetração tecnológica e disposição crescente para pagar por soluções que funcionem. Startups como a Solinftec e a Aegro estão mostrando que é possível construir negócios grandes e lucrativos nesse espaço sem depender de rodadas bilionárias.
O que ainda não funciona
Seria desonesto terminar aqui. O ecossistema brasileiro ainda tem problemas sérios que a recuperação não resolveu. O acesso a capital fora de São Paulo continua desigual de forma absurda. Startups do Norte e Nordeste captam menos de 8% do total investido no país, apesar de representarem mais de 35% da população.
O custo de contratar engenheiros qualificados subiu de forma que está começando a comprometer a competitividade de empresas menores. E a burocracia tributária — sempre a burocracia tributária — continua sendo um imposto invisível sobre o tempo de qualquer fundador que tenta fazer a empresa crescer.
A maturidade que o ecossistema ganhou é real. Mas ela coexiste com estruturas que ainda precisam mudar muito para que o Brasil realize o potencial que todo mundo fala há vinte anos.