Durante anos, o Nubank foi sinônimo de democratização financeira. Cartão sem anuidade, conta sem tarifa, atendimento pelo celular. A proposta era clara: servir quem os bancos grandes ignoravam. E funcionou — a empresa chegou a 100 milhões de clientes no Brasil com esse posicionamento.
Mas há algo mudando silenciosamente na estratégia da empresa. E o Inter está fazendo a mesma coisa, só que de forma mais explícita.
O problema do cliente de baixa renda em escala
Servir dezenas de milhões de clientes com renda baixa é operacionalmente possível. Mas é financeiramente difícil. O custo de aquisição pode ser baixo, mas a receita por cliente também é. E quando você tem 100 milhões de clientes, a pressão por monetização fica enorme.
A solução que tanto o Nubank quanto o Inter encontraram é a mesma: subir na pirâmide. Lançar produtos para clientes com renda mais alta, que geram mais receita por cabeça e têm menor inadimplência.
Números do setor (1º semestre 2025)
- Nubank Ultravioleta: carteira de crédito 38% maior que 2024
- Inter One: crescimento de 52% em clientes com renda acima de R$ 10 mil/mês
- Itaú Personnalité: perda de 4,2% de clientes para fintechs em 12 meses
- Bradesco Prime: revisão de estratégia anunciada para o 2º semestre
Por que os bancos tradicionais estão preocupados
O cliente de alta renda sempre foi o território mais protegido dos grandes bancos. O Itaú Personnalité, o Bradesco Prime, o Santander Select — todos construíram ecossistemas inteiros de relacionamento para manter esse cliente. Gerente dedicado, sala VIP, produtos exclusivos.
O problema é que esse cliente, hoje, tem 35 anos, usa o celular para tudo e não tem nenhuma lealdade especial ao banco onde seus pais tinham conta. Ele vai para onde a experiência for melhor e as taxas forem menores.
"O Personnalité foi construído para um cliente que valorizava o relacionamento presencial. Esse cliente ainda existe, mas está envelhecendo. O cliente de alta renda de 35 anos quer o mesmo que qualquer outro cliente digital: facilidade, transparência e preço justo." — Analista de um grande banco, em condição de anonimato
A corrida por investimentos
O campo de batalha mais intenso não é o crédito — é o investimento. O cliente de alta renda tem dinheiro para aplicar, e as margens em produtos de investimento são substancialmente maiores do que em crédito pessoal.
Tanto o Nubank quanto o Inter lançaram plataformas de investimento com curadoria nos últimos 18 meses. A estratégia é parecida: oferecer acesso a produtos que antes eram exclusivos de private banking — fundos multimercado, renda fixa internacional, ETFs — com interface simples e sem a burocracia dos bancos tradicionais.
Se vai funcionar, ainda é cedo para dizer. Mas os bancos tradicionais, claramente, estão prestando atenção.